A PORTEIRA E O TEMPO
Euripedes Barsanulfo Pereira
.....Aproximo-me da
porteira da sede da Fazenda Bálsamo.
.....Logo à esquerda,
vejo a touceira de bambu, agora pequena; o cruzeiro, que antes
trazia a data da inauguração; o trajeto no qual outrora corria um
rego d'água; uma réplica do engenho, um pouco mais adiante; bem mais
longe ainda, a área do extinto paiol; à direita, o galpão e o carro
mineiro restaurados, e também, o vazio onde havia no passado um
grande mangueiro; e à minha frente, recuperado e imponente, o
casarão construído pelo bisavô Antônio Luiz e seu pai José Antônio
Pereira, por volta de 1880.
.....Arde-me n'alma um
desejo inusitado, para não dizer esdrúxulo e impossível.
.....Voar realmente ao
passado, nas asas do tempo; talvez com o "pó de pirlimpimpim" das
personagens infantis de Monteiro Lobato*, ou com a "máquina do
tempo" de Wells**.
.....Quiçá esta
porteira, num "abre-te Sésamo", me transportasse, e materializasse
este sonho, ao simples deslizar destas cinco varas, nos buracos de
seus mourões.
.....Cada uma destas
travessas far-me-ia retroceder vinte e tantos anos, como num passo
de mágica, às derradeiras décadas do século dezenove, para
reencontrar meus antepassados e aplacar esta saudade que recrudesce
cada vez que te transponho, velha porteira - testemunha da história...
sentinela do tempo!