TERREIRO DE CAFÉ

Euripedes Barsanulfo Pereira

Aos fundos da sede da Fazenda Bálsamo, próximo à casa, sobre a calçada de tijolos, ocorriam as festas dos Pereira, especialmente as juninas. O mesmo local, na época da colheita, transformava-se em terreiro de secagem do café.

A plantação das rubiáceas estendia-se por um bom pedaço de quintal, posterior a esse pátio. O cafezal era da espécie Coffea arabica e seus frutos destinavam-se apenas ao consumo doméstico.

A colheita iniciava-se com arruação bem feita, através de capinagem do solo, entre os arbustos.

Os frutos, já maduros, com o aspecto rubro de cerejas, eram colhidos manualmente pelo processo de derriça sobre pano. Um tipo de encerado de algodão, estendido debaixo das copas, recolhía-os.

Ajuntados com o auxílio de um rastelo, processava-se o abano, quando o café era sacudido nas peneiras, visando separá-lo de impurezas, tais como fragmentos de pedras, folhas e gravetos. Transportados, de imediato, para uma tina de água, submetiam-se à lavagem, e à separação dos frutos em dois lotes: bóias, os mais leves, que flutuavam; e, cerejas e verdes, mais pesados, que tendiam a se depositar no fundo do recipiente.

Transferidos posteriormente para o local de secagem, eram esparramados no terreiro em camadas finas, sendo revolvidos diversas vezes ao dia, com um rodo de madeira, para receberem insolação mais homogênea. Ao final de cada tarde, enleirados e cobertos com lonas de couro, pernoitavam protegidos do sereno e de possível chuva.

Em condições normais de exposição ao sol, e atingida a meia-sêca, isto é, ao teor de umidade ideal (cerca de quatro dias de secagem), o café em coco era ensacado e armazenado na tulha, situada em galpão arejado e fechado, para não receber qualquer luminosidade. Ali permanecia por longo tempo até ser beneficiado.

Aos poucos, pelo ditame das necessidades de consumo, os grãos iam sendo despolpados no monjolo. Depois, voltavam às peneiras, agora fenestradas, para serem sururucados através de seus orifícios, que permitiam separar os grãos chatos dos mocas.

A torrefação se dava em brasa ardente, às rotações do torrefador esférico, ou sob o agito das colheres de pau, nas panelas de ferro. A obtenção do pó, às maniveladas do moedor ou às batidas do pilão.

Finalmente, aquele cafèzinho de paladar suave, para o deleite gustativo da família de Antônio Luiz...

A partir da cozinha, o doce aroma desse infuso abissínio recendia pela casa toda.